class="post-template-default single single-post postid-14660 single-format-standard wp-custom-logo blog-post header-layout-default">

foto de Dom Walmor
Dom Walmor Oliveira de Azevedo*

O Papa Francisco, em sua mensagem dedicada ao Dia Mundial da Paz, faz importante indicação para resgatar a humanidade dos seus estreitamentos sufocantes: trata-se da sabedoria do cuidado. Se o ser humano não aprender a cuidar do próximo e da Casa Comum, continuará a conviver com as vergonhosas desigualdades sociais, com a gradativa perda do sentido da vida, aprisionando-se em correntes escravizadoras. A interpelação central da mensagem do Papa Francisco, chamando a atenção para a sabedoria do cuidado, não permite flexibilizações. Sem a sabedoria do cuidado, a humanidade continuará ameaçada por esta pandemia e por muitas outras terríveis crises de saúde, econômica, social e político-cultural. Orienta o Papa Francisco: a escolha racional para superar tantos problemas é todos se tornarem profetas e testemunhas da cultura do cuidado.

A compreensão de que a humanidade deve se unir e remar no mesmo “barco”, cujo “leme” é a dignidade de cada pessoa, deve inspirar, interpelar e desafiar o ser humano. Não tem outro caminho para se alcançar uma civilização melhor. Na contramão dessa via está a irracionalidade. Por isso mesmo, todos se reconheçam aprendizes – de governantes a cientistas renomados – da ciência do cuidado. Isto, entre outras medidas, exige combater “negacionismos” que buscam minimizar a gravidade da atual crise sanitária, social, ambiental e política. Saber cuidar, na contemporaneidade, inclui também investir na ciência e em suas pesquisas, capazes de conceber vacinas eficazes no combate à pandemia que ameaça a humanidade. Nos campos da religião, da política e da cultura, saber cuidar refere-se à capacidade de aprender novo estilo de vida, reconhecendo a dignidade de cada pessoa.

Na direção oposta do compromisso com o cuidado, multiplicam-se palavrórios, invectivas que apenas provocam curiosidades e alimentam o número de visualizações nas redes sociais, reforçando dimensões existenciais patológicas e juízos condenatórios sobre os outros. Proliferam-se discursos obscurantistas camuflados de fidelidade a um arcabouço doutrinário confessional. Para a humanidade é urgente a aprendizagem do saber cuidar, ciência da vida que inclui o zelo pela ecologia, avanços em clarividências políticas, intuição de novos caminhos civilizacionais, capazes de substituir situações de violência por mais respeito à dignidade humana – sem racismos, exclusões ou outras formas de discriminação.

Saber cuidar é o caminho novo para estabelecer adequadamente o nobre sentido da autoridade política, alicerçado na efetiva defesa de valores e princípios indispensáveis à sociedade, vencendo incoerências. Política qualificada é a que se dedica a cuidar, jamais agindo com indiferença. Nessa mesma perspectiva, uma civilização se qualifica quando todos, igualmente, são respeitados em seus direitos e reconhecem seus deveres – todos cuidando uns dos outros. Também a vivência autêntica da fé, especialmente da fé cristã, exige incondicional adesão à cultura do cuidado.

A Igreja Católica, por exemplo, desde a sua origem, investe nas chamadas obras de misericórdia, priorizando o compromisso com os pobres. Essencial, pois, é o adequado entendimento sobre o cristianismo, que tem por princípio pétreo a valorização de cada ser humano. Na perspectiva cristã, a pessoa humana jamais pode ser considerada simples instrumento, a ser avaliado por sua utilidade – toda pessoa merece e deve ser cuidada. Testemunha-se com autenticidade a fé quando se considera o outro mais importante, especialmente quando se trata dos pobres, inocentes ou vulneráveis. O cristão tem, pois, o dever de promover os Direitos Humanos, que precisam ser mais respeitados nesta sociedade marcada por uma economia que mata.

Saber cuidar é ciência existencial que, para ser aprendida, exige profunda conversão do próprio coração. O cotidiano da humanidade com as suas lógicas clama por essa ciência existencial que pede conversões, para que seja edificada a paz na solidariedade e na fraternidade, dissipando as artimanhas de poderosos que manipulam opiniões para não cumprir com seus deveres em relação aos empobrecidos do planeta. Essencial e urgente é investir na cultura do cuidado. Trata-se de um resgate do que é genuinamente humano, pois saber cuidar é habilidade que gera humanização.

A regeneração da civilização contemporânea exige disciplina no exercício do cuidado – com o outro, que é irmão, e com a Terra, a Casa Comum. Sem esse exercício, continuarão a se multiplicar calvários para a humanidade. A novidade esperada para o ano que se inicia depende da dedicação de todos à ciência capaz de resgatar a humanidade de seus abismos: a ciência do saber cuidar.

(*)Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Outros artigos do autor:

Artigo: Diálogo, o compromisso

Dom Walmor Oliveira de Azevedo* “Fraternidade e diálogo, compromisso de amor”, tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 (CFE-2021), desafio ...
Leia Mais

Artigo: Um século de missão e fé

Dom Walmor Oliveira de Azevedo* A jovem Igreja, Arquidiocese de Belo Horizonte, celebra um século de missão e fé. O ...
Leia Mais

Artigo: Curar o tecido interior

Dom Walmor Oliveira de Azevedo* A sociedade, cotidianamente, se contamina por polêmicas, que geram enorme desgaste emocional e desperdício de ...
Leia Mais

Artigo: Sábios e loucos

Dom Walmor Oliveira de Azevedo* A sabedoria proverbial popular traz referência muito adequada para reflexões sobre o momento atual quando ...
Leia Mais

Artigo: Saber cuidar

Dom Walmor Oliveira de Azevedo* O Papa Francisco, em sua mensagem dedicada ao Dia Mundial da Paz, faz importante indicação ...
Leia Mais

Artigo: Vulnerabilidade e força

Dom Walmor Oliveira de Azevedo* Aproxima-se o Natal, um Natal diferente, que será vivido em circunstância singular, pois o mundo, ...
Leia Mais

Artigo: Eleições e cidadania

Dom Walmor Oliveira de Azevedo* O Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli Tutti, fala da “política melhor” – a que ...
Leia Mais

Artigo: O voto nas eleições

Dom Walmor Oliveira de Azevedo(*) O sentido da democracia e a responsabilidade individual na definição do voto, na liberdade de ...
Leia Mais

Artigo: ‘A política necessária’

Dom Walmor Oliveira de Azevedo(*) Investir no surgimento de qualificadas lideranças e fomentar a insubstituível participação cidadã constituem caminhos para ...
Leia Mais

Dom Walmor toma posse como novo presidente da CNBB

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, foi empossado hoje na presidência da Conferência Nacional dos Bispos ...
Leia Mais