Artigo: Golpes na “política melhor”

  

foto de Dom Walmor
Dom Walmor Oliveira de Azevedo*
O Papa Francisco dedica o quinto capítulo da Carta Encíclica Fratelli Tutti à “política melhor”, oferecendo o desenho humanístico de um importante itinerário para a humanidade. Lições a serem aprendidas para consertar os desmontes sofridos pela política, promovendo correções e avanços na sociedade brasileira. Muitos problemas precisam ser enfrentados, a exemplo do desinteresse pelo contexto político. Esse desinteresse também é consequência dos que desvirtuam a política. É necessária uma civilizada reconfiguração do exercício da política que, além de resgatar a nobreza própria de seu discurso, possa priorizar o bem comum e os parâmetros de uma sociedade democrática, em coerência com o que ensina a Doutrina Social da Igreja Católica. Assim, poderão ser superados atrasos alimentados por segmentos que se organizam nas instâncias do poder para beneficiar seus pares, mesmo descumprindo determinações da Carta Magna da Nação. A “política melhor” na sociedade brasileira tem sido, ao longo da história, sem obviamente deixar de reconhecer e reverenciar os que a promoveram de modo exemplar, fortemente golpeada, produzindo atrasos. Golpes que mostram a baixa estatura de representatividades, criando obstáculos para os que buscam exercer adequadamente a política.

No atual momento, que pede uma reconstrução nacional, é especialmente importante investir na qualificação de critérios para escolhas relacionadas às instâncias de poder. O Papa Francisco adverte, na sua Carta Encíclica, sobre o golpe na “política melhor” vindo de uma agressividade insana – insultos, impropérios, difamação, afrontas verbais que buscam destroçar a figura do outro. A agressividade social tem golpeado duramente a “política melhor”, com facilidades possibilitadas por dispositivos tecnológicos e, particularmente, pela pobreza de raciocínios: defensores aguerridos do que é indefensável se entrincheiram, atrasando passos na direção do bem comum. A mediocridade na tergiversação própria da política – das interações na vida cotidiana às instâncias do poder – explicita parcialidades que iludem, tornando difícil projetar, legislativa e executivamente, o que garante avanços.

Lamenta-se muito pela manutenção onerosa de estruturas a serviço da disseminação de agressividades e de mediocridades no âmbito político, apontando a necessidade de cuidados para não ocorrerem retrocessos. Os golpes na “política melhor” precisam ser denunciados, expostos à sociedade, possibilitando aos cidadãos adequado discernimento na definição da escolha para a sua representação política. Não se pode acompanhar desinteressadamente, sem assumir o compromisso de se buscar efetivar incidentes transformações, quando se constata um vício civilizatório que compromete o bem comum. Os golpes na “política melhor” geram prejuízos, com a priorização dos interesses oligárquicos e o sacrifício do desenvolvimento integral. A sociedade fica refém de um tipo de representatividade que se limita a interesses partidários – muitos são alavancas para o retrocesso, pois se submetem à hegemonia do dinheiro – inviabilizando a construção de consensos.

Toda mediocridade na representação dos cidadãos é um golpe na “política melhor”, com consequências negativas irreversíveis. Não menos graves são os golpes desferidos por diferentes tipos de ideologias que se abdicam do sentido de respeito. Mas é importante advertir: cegamente, ou interesseiramente, existem aqueles que se revelam combativos contra determinada ideologia, mas estão dominados por outra. Verifica-se na contemporaneidade a perda de todo decoro – uma perda ainda mais lamentável quando é constatada em um parlamentar – comprometendo o sentido inegociável de respeito a todos. Consequentemente, a civilização se inscreve em um tempo de muitas grosserias, envolvendo até autoridades políticas.

A “política melhor” é, também, muito golpeada por interesses econômicos que viabilizam operações digitais, garantindo controle e dominação de modo antidemocrático. Não menos pesados são os golpes desferidos na “política melhor” por pessoas que se dizem religiosas, mas se enfileiram nas redes de violência verbal, com destemperos que comprovam as estreitezas de entendimentos, eivados por intolerâncias. Certo é o que diz o Papa Francisco sobre o caminho para que a comunidade mundial efetive a fraternidade, na vivência da amizade social, em todos os níveis. Esse caminho precisa da “política melhor” – serviço ao bem comum. Vem, pois, uma indicação desafiadora: é necessária uma política salutar capaz de reformar as instituições e dotá-las de bons procedimentos, em uma visão ampla capaz de uma reformulação integral por meio de diálogos interdisciplinares, rejeitando e se contrapondo ao mau uso do poder, fazendo frente à corrupção, efetivando o respeito a leis e o compromisso com o bem comum. Um modo eficaz de conter golpes na “política melhor” – por excelência, expressão da caridade.
*Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
*Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
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