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Paulo Antônio*

A pandemia da Covid-19 proporcionou muitos conhecimentos que tanto poderão proporcionar um avanço nas ciências, particularmente às ligadas à saúde, como também, muito provavelmente, em comportamento das pessoas. Pelo menos os ensinamentos e consequências dos atos e posturas das pessoas vão ficando bem claros como, por exemplo, que o uso de máscara previne doenças viróticas e não só a Covid-19. Não há como negar que os sobreviventes aprenderam e aprendem muito, a cada dia, com a pandemia.

A pandemia nos ensinou e mostrou também um lado anônimo do Brasil. Anônimo pelo menos para o repertório de conhecimento geral. Sempre vimos (tomando por regra geral) como instrumento de saúde a existência do SUS e dos médicos generalistas e especializados clínicos (pediatra, cirurgião, ginecologista); os hospitais aos quais se socorrem os doentes em busca de alívio ou supressão de suas dores. O contexto atual nos leva vislumbrar no dia a dia um universo muito mais amplo que passava despercebido pela massa da população e, ao que parece, até para figuras importantes do governo. É então que vemos na televisão os conselhos e orientações não só de médicos dermatologistas e de doenças comuns, mas, agora, predominantemente epidemiologistas, infectologistas, biólogos, sanitaristas, virologistas, microbiologistas, imunologistas, entre outros.

Então foi possível colocar em tela para o público que há ciência aplicada, pesquisadores e um batalhão de especialistas a contribuir para o desenvolvimento científico na área da Saúde, com resultados para o paciente final, lá na enfermaria. Como por trás do Zé Gotinha há pelo menos dois monstros na produção de vacinas: Butantan e Fiocruz, com capacidade para produção dos milhões de doses de vacina que são regularmente aplicadas no país contra varíola, H1N1, antipólio e, agora, contra a Covid-19. É a fase final de um processo da busca de uma vacina para a doença, em que as duas instituições e seus pesquisadores estiveram presentes desde o início, até na linha de frente nas pesquisas da vacina de Oxford, paralelo a outras contribuições brasileiras em outras pesquisas pelo mundo.

A pesquisa e desenvolvimento científicos necessitam de recursos para dedicação dos profissionais e material de pesquisa. Mas o cerne é evidentemente o saber.

A partir da conclusão da pesquisa, comprovada sua eficácia, seja na Saúde ou Astronomia, é hora o investimento que vai proporcionar os benefícios para a sociedade, para a humanidade. No caso da pandemia, é o momento da produção da vacina, das seringas, das agulhas e do azeitamento dos canais de distribuição com a logística e pessoal necessário.

Capacidade instalada para a produção das vacinas existe, mas aí entra outro dilema elementar ditado pela engenharia de produção: qualquer produção é limitada pelo recurso mais escasso. Hoje a produção, tanto do Butantan, quanto da Fiocruz, estão dependentes do insumo que é o cerne da produção de vacina, o ingrediente principal, que é o famoso IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) que ganhou espaço na mídia e no vocabulário do brasileiro. A produção do IFA no Brasil na atualidade é também a medida e o reflexo do descaso do país com pesquisa e desenvolvimento, com ciência e tecnologia.

Há cerca de três décadas o Brasil produzia metade de todo o IFA consumido no país. Não é erro de digitação não: hoje o país produz apenas 5% (cinco por cento) do referido insumo. Ou seja, o Brasil é quase totalmente dependente da importação, sendo que 90% vêm da China e Índia. Neste exato momento, 100% dependente para a fabricação da vacina que combateria a doença pandêmica, traria bem estar para a população e permitiria a retomada do crescimento econômico. Claro que a plebe não sabe disto. Por isto as hilárias postagens nas redes sociais de negacionistas abominando a ‘vacina da China’, ignorando que boa parte, ou quase toda medicação que consome é, em essência, chinesa ou indiana.

O Brasil tem de sobra o Saber, os recursos humanos, a capacidade científica, a competência da pesquisa, tudo ignorado ou menosprezado pelo Estado, como temos visto. Mas, talvez por negar também a ciência, não se deu a mínima para o estímulo à fabricação do ingrediente principal para a indústria farmacêutica, tornando o país dependente do mercado externo.

Em síntese, nós temos o Saber, nos falta o Estado (pelo menos onde ele deve estar!

*Jornalista (PUC-MG) e Especialista em Administração Financeira (FJP)

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